dezembro 10, 2013

A Odisseia no Espaço

Foi na Pré-História que se colocaram os primeiros desafios ao Homem que tinha na Terra o seu único universo e não será ficção julgar que a Humanidade fez-se para o futuro a partir do momento em que o Homem descobriu a tool para conquistar e defender o território e para dominar o outro. Só a dominação pela força permitiu ao Homem evoluir-se ao longo dos tempos adquirindo a capacidade para dar o salto no tempo e conhecer novos mundos à medida que o meio o ia transformando também e que está bem reflectido no filme através dos vibrantes entardeceres naqueles vastos cenários paleolíticos. A tomada de consciência que resultará no tal salto evolutivo, quiçá motivada por uma qualquer força extraterrestre (aqui a ficção não terá necessariamente de ser tomada à letra), está na forma e na figura daquele que é porventura o momento mais clarividente e simbólico da história do cinema, aquele momento em que a primeira arma do homem é arremessada aos céus num grito-macaco dando lugar ao veiculo espacial em queda ascendente e que materializa uma outra distante conquista do homem ali descentrado num universo sem céu e sem horizonte.

Ao som do Danúbio, já o Planeta é um passado e encaminhados pela força magnética do misterioso Deus das estrelas já a busca pelos fundamentos fundamentais da raça humana impõe a Odisseia rumo ao desconhecido, para onde tudo começou e de onde tudo terminará um dia. No Espaço o diálogo é um acessório utilizado como instrumento que ajuda a perpetuar o mistério e cada movimento é um ícone soberbo de mestria composto de música e silêncio que nos eleva às profundezas da nossa estranheza. Tudo fica projectado sobre nós na forma desse bailado que ao longo da obra de arte vai lançando cada vez mais perguntas cujo fim não tem meio de devolver respostas lineares. Que força é essa que um dia nos deu a objectividade para cumprirmos as nossas capacidades mas que passados milhões de anos nos faz mover para o vazio mais obscuro sob o risco de nos mostrar a “verdade”? Que terror é esse o da infalibilidade electrónica e que, tal como nós, no fundo, apenas existe por se mover por objectivos maiores do que a própria sobrevivência? E como se define a sobrevivência num contexto onde todos os conceitos estão inquinados pelas expectativas materiais do intelecto intra-humano? 

Se a máquina serve para cumprir o desígnio imposto pelo próprio Homem, e se a confiança que lhe é programada para cumprir esse objectivo lhe dá a independência suficiente para no limite decidir sobre a vida humana, não será abusivo dizer que o momento em que o último sobrevivente desliga o supercomputador é de certa forma o momento em que ele desliga parte de si, aquela parte em que faz parte do processo de racionalidade de uma comunidade culta mas que à distância de milhares de anos está muito longe da verdade oculta que está para lá do entendimento do cosmos. Será pois a partir desse momento, que desta forma o homem regressa às origens, a um estado primitivo, sozinho e entregue ao destino que ali, já longe de 2001, vai-se concretizar na última viagem por um caminho de psicadélica glória, para lá do infinito e com todo o esplendor full of stars, rumo ao conforto da casa de Deus, pois não será de outra coisa aquele misterioso lugar onde o tempo avança para a morte à medida que quase simultaneamente já o corpo renasce para um presente final.


Na revisitação que fiz a 2001: Odisseia no Espaço, vejo agora claramente que este filme representa aquilo que define a Sétima Arte como extensão plena da pluralidade individual de nós mesmos. Qualificá-lo está longe de ser uma opção baseada no gosto ou na preferência de cada um. Este é o filme maior e o filme universal, obra-prima suprema em termos técnicos e onde as suas formas narrativas são feitas dos mais implacáveis e aterradores enigmas cujas soluções não existem à dimensão a que conseguimos vulgarmente colocá-las. Esta Odisseia de Kubrick é o Júpiter, impossível de habitar ou ser comparado ou igualado com outra coisa qualquer que conheçamos. É, enfim, o produto acabado em movimento eterno e a representação perfeita daquilo a que podemos considerar um cinema de todos como património comum da nossa globalidade e insignificância no Universo.

dezembro 01, 2013

Os Zombots (1/2)

Frankenstein's Army pode ser mais um daqueles filmes feitos na base da diabolização nazi, é verdade. É mais um desses filmes que usa a temática do reich extra-terrestreal, do reich experimentalista da desumanidade e que usou e gozou de inefáveis meios para praticar a sua infâmia no contexto da guerra contra os soviéticos e na eliminação dos judeus. Isto é verdade e este aparece sendo mais um filme desses. Mas quando pensamos que a temática possa estar gasta, aparecem casos como o deste filme e que fazem prova de que com um pouco de imaginação consegue chegar-se sempre mais longe. O filme em si não é grande coisa e suporto-me sobretudo à representação e à forma como a acção vai sendo desenvolvida, mas a verdade é que não deixa de ser fantástica esta ideia de um Dr. Frankenstein nazi que nos confins do território e dos últimos dias da segunda grande guerra puxou dos seus galões steampunk criando autênticos guerreiros das trevas automatizados para destruir os inimigos.
Pois são estas criações demoníacas que fazem a história neste filme e que criam o ambiente todo e por isso mesmo merecem aqui a sua reprodução através do art work.
O culto é feito destas coisas, os Zombots.









novembro 12, 2013

Uma imagem sem o filme


Que xadrez é este, Bergman? Qual aquele oceano e onde fica este paraíso de pedras? Mas que silêncio infinito guardará o silêncio destas peças? É estranho ver uma imagem de um filme sem saber qual o contexto, sem ter visto portanto o filme e tão pouco do que fala. O Sétimo Selo. Sempre me intrigou este título. Dizem que é uma obra-prima como quase todos os filmes do mestre, não duvido, mas não conheço, este e certamente muitos outros e também a verdade é que quanto mais se conhece a realidade mais longe estamos de conhecer tudo, seja tudo o que for, mesmo que seja nada ou a simples aparência da insignificância mais vaga e abstracta. Não será isso propriamente mau se for consciente a afirmação dessa condição e não feita puramente assente na deriva material do materialismo que nos aproxima uns dos outros e que nos dá tanto conhecimento mas que no fundo desvirtua a base elementar da convivência com o silêncio da natureza, da viva à mais morta e da nossa própria.
Quero pois olhar para esta imagem e sentir que através da sua configuração intelectual consigo atingir o estado espiritual térreo que preciso para interpretar as coisas simples. Pois hoje é dia de ser mais um dia simples, um dia em que estou farto deste ruído agreste que vem de fora. Hoje não quero ver imagens em movimento, não quero ouvir nada que não venha da minha cabeça e só quero imaginar que a minha única virtude é ser um ser que só se concretiza parando o movimento das coisas sem querer saber do resto. Hoje é o dia para visitar a minha ignorância sobre as coisas e apelar ao meu espírito de aventureiro desventurado que se perdeu no caminho da razoabilidade.
Será esta imagem a afirmação da racionalidade do homem através do movimento tabular sobre as coisas naturais? Serão estas as linhas com que se desenham os contornos do dialéctico mental versando à soberba humildade etérea da terra? Pensando bem, eu não quero respostas para esta imagem, muito menos procuro as respostas do autor que as concebeu. Só quero olhar para ela para sempre e não perceber nada da vida ou tentar esquecer que percebo alguma coisa dela, porque é não percebendo que eu neste momento sou completo e que sou útil à sociedade. É assim que eu agora sou e talvez é sendo desta forma que consiga melhor compreender o fundamento deste jogo da razão no confronto directo com o painel cinzento dos sentimentos. 

novembro 02, 2013

Polaroid Tarkovsky (1/4)

Realizador de alguns dos filmes mais marcantes do século passado, Solyaris ou Stalker de entre outros, Andrei Tarkovsky foi também um aficionado da fotografia Polaroid. Em 2006 foi publicado precisamente um livro que reuniu essas imagens tiradas pela Polaroid do realizador russo. Durante este mês proponho trazer aqui algumas dessas fotografias.





outubro 29, 2013

A gravidade depois de 2001

Gravity vai ficar marcado em mim como a melhor experiência em sala de cinema que já tive. No final, fiquei com curiosidade para saber se a versão normal traria o mesmo tipo de sensações e conclusões que aquelas vistas e tiradas naquele ecrã gigante, pois é inegável que a sala IMAX do Colombo proporciona uma experiência física diferente que, a meu ver, permite aproximar o espectador daquilo a que este filme se propõe. E quando falo em aproximar é quase no sentido literal do termo.
Em termos visuais, Gravity é um espectáculo colossal e magnânimo fazendo justiça ao extremo clima espacial. O trabalho na profundidade dos planos e a noção de velocidade na deriva, quer nas situações mais controladas ou nas mais descontroladas e aliado à forma como se encaixam os sons e a música está feito de forma notável. Não fossem as punch lines comercialoides da personagem de Clooney ou a necessidade de preencher o silêncio com outras linhas de diálogo desnecessárias e estaríamos aqui perante um filme maior, possível de chegar perto de 2001 já que é com este que se pode estabelecer alguma espécie de paralelismo, em termos estéticos e na fidelidade ao real do Espaço, claro.
Sendo verdade que em termos narrativos tudo aquilo que tem vindo a ser feito na ficção científica, incluindo este Gravity, continua a estar a anos-luz de 2001, ainda assim os aspectos da estória deste filme são abordados de uma forma que, à órbita e no olhar sobre a “mãe azul” e sob a infinitude espacial, atingem um inevitável nível filosófico que acaba por estar bem conseguido. Se a origem do Homem está naquele vazio tão total e complexo, é pois confrontado com esse vazio que o Homem acabará por encontrar as respostas mais simples para a sua sobrevivência. O desfecho é categórico nesse sentido, pelo que foi então na situação-limite da mais perfeita e derradeira solidão e na eminência do silêncio eterno, que Ryan Stone teve a epifania da sua vida que lhe permitiu no final ganhar de novo a gravidade.

outubro 28, 2013

A cena do chuveiro

Neste espaço onde pretendo trazer algumas das cenas de cinema que considero mais memoráveis estarão com certeza muitas daquelas que nos vêm logo à memória e que correspondem a filmes que marcaram a história. A recuperação de certas cenas será então um cliché ou mais um apontamento de banalidade dada a popularidade dessas imagens, não nego isso. Mas por outro lado nunca é demais rever e relembrar esses momentos, muitas vezes feitos de simplicidade, frutos do fait diver, feitos sem o propósito de tornar memorável, não mais sendo do que pedaços que complementam uma narrativa.
Neste caso relembrar a cena do chuveiro em Psycho é mais do que um cliché. Mas na perspectiva da análise e estudo da mecânica cinematográfica, esta revisitação é seguramente uma obrigação.

outubro 21, 2013

Têm sido tempos fortíssimos


Setembro e Outubro vão ficar marcados por alguns acontecimentos importantes no universo das séries televisivas. Foi nesta altura que terminaram duas das séries mais emblemáticas de todos os tempos. Dexter e Breaking Bad. Dexter é um claro exemplo de perda de qualidade ao longo das longas temporadas, cujo finale acabou por dar o devido seguimento a este facto. Ainda assim essa perda de qualidade e a desilusão pela forma como acabou a história não apagam o mérito de uma das mais importantes séries já feitas cuja personagem Dexter ficará para sempre na memória. Já Breaking Bad assumiu-se desde o primeiro episódio até ao último como a melhor série dramática de sempre. Penso que o segredo para o sucesso de Breking Bad esteve na forma como conseguiu transmitir ao espectador uma espécie de mixed feelings face à personagem principal. Walter White era um fabricante de droga, o que por si só lhe daria um carácter detestável, mas a sua personalidade, o drama que ele vive na sua vida e a forma como ele se envolve no meandro do fabrico e tráfico, os mal entendidos, o sentido de justiça e outras diversas tropelias mais ou menos constrangedoras feitas com um bom sentido de humor fizeram desta personagem e desta série uma das favoritas e mais amadas e admiradas. 
Se em Setembro chegaram ao fim algumas das melhores séries, em Outubro já começaram outras que não ficarão muito atrás das duas que referi e que terminaram em setembro. Não sou pessoa viciada em séries pelo que prefiro pensar que só vejo aquelas que valem a pena, do alto do meu sentido critico…Homeland, American Horror Story e The Walking Dead são os meus destaques. Homeland mostrou também desde cedo ser uma série de qualidade, uma série que se propõe a penetrar fundo no tema da ameaça terrorista e que não tem medo em abordar a problemática dos vários poderes e interesses políticos que estão por trás desse combate. American Horror Story desperta sempre a curiosidade movida pela primeira temporada, francamente de boa qualidade num segmento sempre difícil de agradar como é o do terror. E The Walking Dead, talvez a série que mova mais fãs a par de Game of Thrones, e que marca a diferença num tempo imerso em muito ruido zombie. 

outubro 19, 2013

Anónima noite das bruxas (1/2)

Os Planos Perpétuos entram a partir de hoje em modo Halloween e no out of box são aqui revelados até ao final do mês, uma série de retratos tirados entre 1875 e 1955 de gente anónima a propósito dos festejos da noite das bruxas, fotografias essas que estão compiladas no livro Haunted Air de Ossian Brown, obra apadrinhada por David Lynch que escreveu a sua introdução.
O detalhe e o terror de algumas máscaras fazem com certeza inveja a muitos dos vilões mascarados que assombram o nosso imaginário. Por agora aqui ficam alguns retratos individuais sendo que para a próxima semana trarei as fotografias familiares.





outubro 15, 2013

Ainda há bons filmes sobre o desporto

Filmar o desporto para cinema tem-se revelado num exercício muito difícil para os realizadores que optem por pegar nas histórias e momentos da história desportiva mundial. Independentemente do financiamento ou se se tratar de biografia ou ficção, se formos a fazer uma análise fria ao produto final apercebemo-nos que os resultados são geralmente sempre fracos. Não falo com certeza de tudo aquilo que gira em torno do desportista, ou seja, todos os dramas ou subdramas relacionados com a história da personagem ou personagens principais, que, verdade seja dita, neste tipo de filmes são normalmente postos num plano muito melodramático demais, tornando muitas vezes o atleta num super-herói dos tempos que em certa medida o é, mas a isso se deve uma explicação mais profundamente sociológica que nunca cabe num filme de cinema. Mas a minha constatação incide mais sob a forma como se filma o sport em si, a acção no terreno da modalidade e é inegável a dificuldade em captar esses movimentos, excepção feita aos desportos de ringue, como por exemplo o boxe, onde aí encontramos filmes como Touro Enraivecido ou Rocky. Talvez a isso se deva o facto de o ringue ser um espaço mais curto. Veja-se por exemplo a forma como Clint Eastwood conseguiu captar o desporto em Million Dollar Baby mas depois em Invictus falhou redondamente a filmar Rugby. Isto não é uma crítica, é sobretudo a constatação com base numa opinião.
Isto leva-me a Rush e ao elogio a Ron Howard. A Formula 1 é um desporto que se distingue de outros por ser motorizado, mas ainda assim estou certo que não será fácil fazer um filme sobre F1 que consiga imprimir e transmitir toda a velocidade e som dando-lhe o realismo certo que faça justiça a este desporto. E neste filme Ron Howard consegue dar à pista e aos carros todas essas características fazendo um filme bem centrado e que não se perde nos tais excessivos melodramas. O focus do filme está na corrida e na rivalidade entre dois pilotos que marcaram uma geração, no eterno duelo entre o coração e a razão, a paixão e a mecânica. Sendo estes ingredientes excelentes para se fazer um filme que prende o espectador, Howard mostrou uma preocupação em dar verdade ao realismo e usou também em doses muito moderadas o enquadramento mais intimo de Lauda e Hunt não sendo preciso mostrar muito do lado pessoal destes dois pilotos para percebermos qual o papel deles na história e qual o impacto que isso teve na forma como encararam as corridas e como construíram as suas carreiras. 

outubro 12, 2013

Posters checoslovacos (2/2)

Fišer, Jaroslav em 1970

Vyleťal, Josef em 1970

Galová-Vodrážková, Eva em 1969

Grygar, Milan em 1962

outubro 05, 2013

Posters checoslovacos (1/2)

É no poster que reside a imagem ou composição de imagens em que daí resulte a finalidade da divulgação do filme para o mundo e bem sabemos que por vezes são feitas verdadeiras obras de arte nesse sentido, autênticos objectos de culto que fazem justamente justiça aos filmes a que dão cara. Para além das versões oficiais, proliferam autores que dão azo à sua imaginação fazendo as suas próprias versões e muitas vezes surpreendemo-nos com esses resultados mais pessoais e independentes que podem até superar as versões oficiais dos filmes.
Nessa medida dei de caras com uma série de posters criados por alguns artistas checoslovacos durante a década de 60 e 70 que pegaram em muitos dos clássicos mundiais e desenvolveram as suas alternativas versões. Os resultados que encontramos são deveras originais e em alguns casos algo bizarros, tão bizarros que nem conseguimos perceber a que filme se referem se não tivermos a respectiva legenda e/ou tradução do nome do filme.
Proponho em jeito de desafio dar a conhecer alguns desses posters mais incomuns feitos por esses estranhos mas bastante criativos artistas.

Flejšar, Josef em 1962

Fischerová, Olga em 1976

Balcar, Jiří em 1960

Ziegler, Zdeněk em 1973

setembro 28, 2013

No início era o macaco

Eu não podia fechar este mês com a referência filmica a Kubrick. É verdade que as fotografias para a Look já anteviam qualquer coisa para o futuro, mas o cinema superou tudo. Fechar esta espécie de ciclo fotográfico de Kubrick com uma pequena parte da longa cena inicial de 2001 é mais do que merecido. Dirão que foi a partir de 2001 que Kubrick se fez Kubrick e de facto é bem verdade. Pode também afirmar-se que já antes, com Lolita e Dr. Strangelove, Kubrick foi trabalhando-lhe o génio mas em 2001, tal uma supernova, o realizador despertou e fez-se brilhar de outra maneira mudando para sempre o cinema.
Nesta cena em particular cabe aquela que será porventura a melhor transição da história do cinema, do passado para o futuro, um osso usado como primeiro instrumento de guerra para a nave espacial, símbolo da perfeita exploração do espaço, para lá do cosmos, para lá das fronteiras e de tudo aquilo que um dia julgámos ser impossível.