agosto 22, 2013

Não só a Cinemateca fecha

É curioso de ver que é preciso as coisas chegarem a uma situação limite para haver mobilização em torno das grandes causas. O maior exemplo dessa demonstração de mobilização popular foi muito provavelmente na questão de Timor. Nesse momento, ninguém foi capaz de ficar indiferente a algo que todos sentíamos ser da nossa responsabilidade. Claro que, se os atropelos aos direitos humanos se passarem uns quilómetros ao lado, numa terra desgraçada que não faça parte desse património comum que nos diga respeito, depressa nos lamentamos mas passivos perante tais atropelos à humanidade, como parece estar a acontecer na Síria ou no Egipto. Mas esta é uma verdade da nossa natureza que é acima de tudo egoísta, embora com intervalos de um altruísmo comovente.

Mais recentemente é o contexto da crise económica que torna capaz a mobilização das massas para, em gesto misto de convicção e esperança, tentar mudar alguma coisa e a bem da verdade, sem grandes resultados. É verdade também que o apoio generalizado que é demonstrado em certas situações não coincide propriamente com o interesse ou adesão real que elas suscitam. Mas como é óbvio não é preciso morar em Lisboa, frequentar a Cinemateca ou até gostar de cinema para saber que aquele edifício é fundamental para a sociedade portuguesa. Só os obtusos não entendem isso, mas infelizmente temos sido governados por gente obtusa que defende outros interesses sem olhar a meios e sem hesitar em cortar em coisas que dizem respeito às pessoas reais.
O problema da Cinemateca é coisa que tem vindo a arrastar-se e ou muito me engano ou todos somos responsáveis por isso. A verdade é que vamos olhando para as verbas da cultura serem reduzidas e não nos insurgimos, como se isso dissesse exclusivamente respeito aos artistas. É preciso a Cinemateca fechar ou os cinemas e os teatros fecharem para nos lembrarmos que existem e que se calhar até fazem falta. Somos responsáveis mas diga-se que também somos vítimas, vitimas de gigantescas campanhas de marketing que suportam a razão da política de austeridade, politicas de guerrilha e terror social que despertam o que de pior tem o ser humano tornando-o insensível perante verdadeiras catástrofes como aquela que a directora tem vindo a dar conhecimento, para além daquilo que cineastas, músicos, actores e artistas andam cansados de refutar há anos.

Este entorpecimento com que vivemos a realidade toldou-nos a atenção para aquilo que verdadeiramente importa e infelizmente é quando chegamos ao limite que nos mobilizamos. A realidade é que a cultura está a morrer e enquanto todas as pessoas não só em Portugal mas na Europa toda não se mentalizarem de que se a cultura morrer, todos morremos, continuaremos alegremente a discutir e a aceitar o argumento de que o Estado gasta rios de dinheiro com filmes que ninguém vê ou que os contribuintes estão a pagar fundamentos culturais que não dão retorno nenhum. Pois bem, o património não serve para ser lucrativo. O património serve para nos lembrarmos que existimos, sem isso ficamos sem passado, e por outro lado, se no presente não temos as condições para construir o passado de amanhã, não vamos ter nada no futuro de que nos orgulhemos.


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