setembro 28, 2013

No início era o macaco

Eu não podia fechar este mês com a referência filmica a Kubrick. É verdade que as fotografias para a Look já anteviam qualquer coisa para o futuro, mas o cinema superou tudo. Fechar esta espécie de ciclo fotográfico de Kubrick com uma pequena parte da longa cena inicial de 2001 é mais do que merecido. Dirão que foi a partir de 2001 que Kubrick se fez Kubrick e de facto é bem verdade. Pode também afirmar-se que já antes, com Lolita e Dr. Strangelove, Kubrick foi trabalhando-lhe o génio mas em 2001, tal uma supernova, o realizador despertou e fez-se brilhar de outra maneira mudando para sempre o cinema.
Nesta cena em particular cabe aquela que será porventura a melhor transição da história do cinema, do passado para o futuro, um osso usado como primeiro instrumento de guerra para a nave espacial, símbolo da perfeita exploração do espaço, para lá do cosmos, para lá das fronteiras e de tudo aquilo que um dia julgámos ser impossível.

setembro 09, 2013

Blowup

Todas as palavras serão poucas para fazer justiça à totalidade de Blowup de Antonioni. Nem a cena que trago consegue reproduzir a ideia que gostava de transmitir. Mas, usando de um esforço que só este tipo de filmes pode merecer, vou tentar dizer alguma coisa. Aquilo que com certeza mais me fascina no cinema é a possibilidade que ele tem em reunir várias modalidades artísticas em função da ficção filmada. Desta forma, Blowup suporta este meu fascínio não sendo apenas um filme, mas sim uma conjugação plena de formas de arte que resultaram num filme de uma afirmação cultural que acaba por extravasar as fronteiras do tempo. Neste filme em particular é absolutamente brilhante o enquadramento da narrativa num modeling pop alternativo que se reflecte no guarda-roupa, na música, na cenografia e na construção da função do fotógrafo concebida como um escultor de imagens vivas. Se repararmos bem a imagem do poster original do filme parece um monumento, uma escultura tirada do momento em que o fotógrafo possui a modelo através da fotografia, imagem que remete até para o acto sexual. Há com certeza muitas cenas ou imagens que suportem melhor esta ideia que tiro do filme, mas vale a pena rebuscar a cena do concerto porque reflecte a preocupação séria em ancorar de realidade o filme. A cena acontece num sub-club britânico onde as pessoas que assistem ao espectáculo comportam-se como manequins mesmo perante a fúria das guitarras de Jimmy Page e Jeff Beck dos Yardbirds que depressa resolvem tornar o concerto num desconcerto generalizado tal a geração ali representada na mais perfeita extravagância, enfim, motivos muito singulares que servem de pano de fundo à inquietante busca pela verdade ou por aquilo que o fotógrafo julga ser a verdade.

setembro 01, 2013

Stanley Kubrick: early years

Para quem tem vindo a estar atento àquilo que escrevo, não será difícil perceber que Stanley Kubrick é o meu realizador de cinema preferido. Aliás, não sei se é de fácil percepção uma vez que em favor da pluralidade deste espaço prefiro não abusar muito do tema. Mas é um facto. Os seus filmes assombram-me com um magnetismo de uma particularidade única que não encontro em mais nenhum filme de outro realizador. Aquilo que porventura mais me fascina na sua obra é aquela que foi a sua devoção na criação de imagens e cenas icónicas, essa preocupação transversal em todos os filmes orientando-se pelos melhores e mais originais planos seguindo um instinto estético como, ouso dizer, não houve e nem há ninguém no cinema capaz de igualar sequer.
Decido dedicar este mês de rentrée ao realizador antes de o ser e ao longo das próximas semanas irei revisitar algumas fotografias de Stanley quando com 16 anos era apenas e já na altura um fotografo da revista Look. Dedicar-lhe um mês inteiro sem falar do seu cinema parece bizarria, mas a verdade é que o seu adolescente despertar para a linguagem da imagem e este prévio exercício de captação da vida mundana terá com certeza sido fundamental para anos mais tarde vir a ser o realizador de 2001, Laranja Mecânica ou Shining.