janeiro 10, 2014

Não vão ser precisos 12 anos para ganhar um óscar

Quando o filme acabou não pude deixar de sentir uma sensação agri-doce dentro de mim. Os meus olhos e o meu coração estavam embargados com o aquele final e com o que tinha acabado de ver pois por um lado fiquei com a certeza de que tinha acabado de assistir a um bom filme, um bom filme em termos técnicos, de exploração da história, na interpretação dos actores. Mas por outro lado, após secar as emoções fortes que me despertara esta história, apercebi-me que essas mesmas emoções eram também o sinal de que, com aquele filme, tinha presenciado a viragem de ciclo de um dos realizadores mais promissores do cinema.
Para a crítica com certeza que 12 Years a Slave ficará como a afirmação de Steve McQueen no mundo da realização e que será com justiça consagrada nos prémios que se avizinham. Na minha opinião, não pode ser de outra forma, mesmo não tendo visto ainda aqueles que, juntamente com este, são apontados aos prémios. É um filme claramente para ganhar e dirá a parte crítica da crítica que esse é o problema. No entanto, há aqui que confessar que, à luz do presente, é sempre um pouco difícil aceitarmos estas evoluções dos realizadores que são sobretudo marcadas pelos meios de produção que vão tendo à disposição à medida que fazem as suas carreiras e que lhes permitem executar projectos de maior dimensão e ambição. Mas independente dos meios, eu quero acreditar que Steve McQueen fez o filme que queria fazer baseado numa história a que não conseguiu ficar indiferente. Se os meios de produção desvirtuam ou condicionam a liberdade criativa, quero acreditar que neste caso essa pode não ser uma verdade assim tão absoluta se pensarmos que, como em tudo na vida, existe sim uma adaptação face às diversas circunstancias, a própria mutação da personalidade num mundo global cheio de desafios e que aqui teve o propósito de fazer justiça à história incrível de Solomon nesse pedaço da História, desafio este que foi concretizado com seriedade e qualidade inquestionáveis.
Embora desiludido por ver partir esse realizador que fez Hunger ou Shame, sem dúvida filmes mais independentes, mais autorais, de complexidade mais perturbadora, de guerrilha silenciosa, urbana e soturna, este consensual filme dá a garantia de que um grande realizador está a trilhar o seu caminho com a segurança daqueles que sabem o que estão a fazer.



1 comentário:

  1. Não consigo concordar contigo embora perceba a tua perspectiva. Nota-se aqui uma diferença relativamente a Hunger e Shame mas, para mim, tem mais a ver com a própria história do que com os meios de produção em si. Ou seja, estes filmes estavam absolutamente centrados no seu protagonista, o qual, mesmo que de modo diferente, estava condenado a uma aura de solidão e desespero. No 12 Years A Slave, apesar de ser a história de Solomon, a sua história dependeu não só dele mas também da interacção com o seu meio e os outros e a sua história acaba por envolver uma dor e uma esperança que terão que ser universais...Não sei se me expliquei bem, foi o que eu senti ao ver o filme...por isso, e mesmo que 12 Years A Slave não seja o meu preferido dos três, não penso que o realizador de Hunger e Shame tenha partido...

    ResponderEliminar