janeiro 19, 2015

O homem-pássaro e o super realismo sem grande coisa para recordar

Ao longo destes últimos tempos pouco tem sobrado para ver cinema bem como para outras derivas. Mas agora que as coisas vão entrando nos eixos,os filmes vão também ocupando maior lugar no meu tempo. Não fosse o meu trabalho gravitar à volta e sobre o cinema não aguentaria a ressaca. Àqueles que me liam, o que posso dizer é que estou de regresso mediante as possibilidades em conciliar a recente paternidade, a vida profissional e a publicação neste e noutros espaços. Não deixa de ser curioso, mas passou praticamente um ano desde a última vez que publiquei e o último filme de que aqui falei, Under The Skin, continua a ser o melhor filme que vi desde então...
Ora,vi Birdman com aquela desconfiança que os consensos naturalmente me despertam. E a verdade é que essa desconfiança tinha razão de ser. Na minha opinião assim dita. Será Birdman um clássico exemplo de um filme consensual. Excelentes actores, um discurso fácil de assimilar, a indumentária trágica e cómica de uma narrativa prestes a explodir em deslumbramento surrealista, enfim um produto cheio de profundas reflexões sobre os tempos que correm e, para as massas, movidas a placebo, de uma grandiosidade simples que nunca sabem muito bem explicar. Haverá ainda aqueles que suportam-lhe a qualidade nas interpretações, nomeadamente a de Michael Keaton, com razão. Mas talvez esta seja a única razão para ver um filme que, embora seja diferente no aspecto de trazer de volta um pouco do cinema de verdade, não consegue disfarçar um fracasso de fundo que é vincado na critica simplista meio metida à pressão, como que de lugar-comum, à sociedade em geral e ao meio artístico em particular, através de uma profundidade sofrida que é conferida pelo acting de Keaton. A partir deste statement do filme, é interessante concluir o crescendo da esquizofrenia que vivemos. Somos seres cada vez mais críticos e conscientes dos mecanismos automáticos do sucesso, através dos novos media, redes sociais e afins, mas por outro lado estamos cada vez mais dispostos a aceitar que todo e qualquer produto sobre daí, que daí venha, onde habita, sem margem e absolutamente integrado nessa "rede", tome conta das nossas vidas. Não mais do que isso. Nessa medida, precisamente, foi preciso Inarritu estar mais "alinhado" para estar mais "dentro" da opinião dourada e assim projectar-se com Birdman para um outro nível.
Nota para a filmagem do plano em longa sequência, em que já vi algures escrito, falsa, com cortes subtis, mas com certeza! A questão não é essa. A questão é que esta opção de filmagem é servida para reforçar a sensação de labirinto onde estamos metidos e mostrar a caótica certeza dos corredores da Broadway. Essa será porventura a característica mais interessante do filme, não a técnica em si, mas a sensação que nos desperta e para onde nos leva, a de cansados num labirinto, levados ao enjoo, no estreito lugar onde todos se cruzam e ninguém se encontra.


2 comentários:

  1. Somos seres cada vez mais críticos, é verdade. É por causa disso que um filme pode ser incrivelmente belo para uns e uma perda de tempo para outros. Para mim, os planos onde aparecem aqueles corredores intermináveis provocam-me uma certa agonia ehehehe. Cumprimentos!

    ResponderEliminar
  2. Ah como fiquei contente quando vi que tinhas voltado ao blogue! Parabéns pela recente paternidade! Ainda não vi Birdman, está na lista...quando o vir voltarei cá certamente partilhar opinião! ;)

    ResponderEliminar