maio 13, 2014

Afinal o cinema está debaixo da pele

O cinema não é mais do que a prática da originalidade estando por certo sempre ancorada na estimulação não linear dos sentidos. É este o cinema que nos acelera a batida, que nos envolve por dentro, que provoca o medo e devolve a angustia de quem por fim não sabe bem o que acabou de ver. E este é o filme, este é então o cinema de que mais gosto e que afinal estava aqui tão perto, como que debaixo da pele.
Alternativo, estimulante, composto, delineando a estranheza de uma tentação extra-terrestre que só podia ter corpo numa das terrestres mais belas, Scarlett Johansson. É logo desde o inicio que somos conduzidos para uma experiência nova onde nem cabem as referências a Kubrick ou Lynch tão eternos como esse passado e que aqui Glazer transforma em contemporaneidade através de um trabalho original, tão fino como denso, um pleno de suspense e terror de uma industrialidade vinculada ao corpo e ao som rasgado da banda sonora que ajuda a conferir grande intensidade a esta criação. É na repetição desses sons e dos caminhos que levam as vitimas humanas ao labirinto isolado e desnudo da predação, que está espelhado o toque de génio do realizador, tão imerso numa substância estranha que se define no esplendor incógnito de uma trama de erotismo e morte, sem prazer e sem gritos, de poucas palavras e um rito sempre igual mas cheio de objectivo. Atingir o objectivo em Debaixo da Pele é então um exercício feito quase sob hipnose, de forma meio delirada, surrealista, mas em simultâneo ligada à identidade de um espaço familiar. É interessante todo o cenário, cheio de propósito, um subúrbio escocês, como que no fim do mundo, um mundo perfeitamente esculpido às necessidades da sobrevivência extra-terrestre através da aniquilação da solidão masculina, ora muito viril e ignorante, ora carente por distância e exclusão, o que faz por, no fim, mostrar ao alien o que é a humanidade e que é por um lado protectora e sensível, mas por outro, ofensiva e abusadora.
Filme do ano, independente, independentemente do que digam, esta é a nova ficção cientifica do século sem grandes artifícios ou artimanhas espaciais, um pedaço de cinema magistral sem defeito que se aponte ou qualidade que se consiga verbalizar na perfeição. Enfim, um objecto intimo e permanente tal o sangue que nos corre a todos por debaixo.

fevereiro 28, 2014

Uma grande beleza

É bela a ideia de ver deitado o mar no embarque para a história. Durante mais de duas horas fui romano ou como Jep um mundano, rei da mundanidade. Que sonho é este o da mundanidade? Haverá pois na decadência da sociedade o melhor poema ou quadro que se possa fazer. Haverá sempre no beco mais sujo o mais perfeito cruzamento com a memória, esse espelho de reflexos que um dia couberam no tempo passado e que eternamente resistem à passagem. Haverá sim na degradação da expressão intelectual uma fonte inesgotável de palavras ocas que gritam aos sítios por uma revolta. Haverá nesta selva selvagem de ruínas as penumbras capazes de nos salvarem. Jep deambula por entre os espaços como se fosse um morto-vivo, como se pairasse trazendo o último julgamento da humanidade por mais cruel que esse seja. Jep percorre tudo, tão vivo e tão morto em toda a sua mobilidade como as obras primas revisitadas e cheias de imortalidade. Roma será certamente uma das derradeiras cidades simultâneas em todo o mundo, onde a história imutável cruza-se todos os dias com a volátil mundanidade que dirão decadente mas que é, por outro lado, inevitavelmente libertadora por clarificar o desígnio da actualidade, mesmo se tal conclusão remeter para uma profunda desilusão e desespero. Cada plano traz no focus da sombra de todas as pessoas uma melancolia plena cheia de presunção não mais do que plástica e por nada inocente na sua composição. A Grande Beleza, uma das peças contemporâneas mais completas da arte do filme enquanto produto de uma filmagem, de uma visão erudita e rupestre também, cheia de espírito e estilo europeu que no seu decorrer acaba por fazer uma inteligente critica aos dilemas e contrastes da sociedade deste tempo.

fevereiro 19, 2014

A nova ficção científica de Ridley Scott

parece resumir-se a desfiladores de estilo de duvidosa moda, gangsters implacáveis, decapitações variadas a pé ou a alta velocidade, a tradicional e trágica história do amor maior, a polivalência capilar de Bardem, contos sexuais e outras histórias menores que só servem para agudizar a dor da passagem dos minutos e no meio de tudo isto reflexões intelectuais de pseudo alto gabarito, improváveis e desconcertantes, negativamente com certeza. O Conselheiro. É isto a nova ficção cientifica de Ridley Scott, o génio criador ou recriador do género para cinema. Claro que a ficção científica é chamada a este texto como provocação porque a verdade é que há muito que o realizador deixou este campeonato. É verdade que depois de ressuscitar o alien com a prequela Prometheus voltámos a ver um pouco daquilo que deu o nome a Ridley Scott muito embora a qualidade desse filme mereça também ser alvo de critica. No entanto foi sol de pouca dura pois apesar de todas as noticias que se seguiram ao lançamento de Prometheus acerca da continuação da história, vemos que todas elas serviram única e exclusivamente ao marketing do filme pois parece que nada está ainda convenientemente projectado e mesmo a já mítica recuperação de Blade Runner, para além de pronunciar-se como fiasco, parece ainda uma coisa longínqua de se concretizar no tempo de Scott dadas estas variações duvidosas. O talento de Ridley Scott é conhecido e reconhecido mas infelizmente no que à ficção científica diz respeito não faz nada de original, ou seja, nada que não seja baseado nas obras-primas que deram inicio à sua carreira e mesmo todos estes dramas, thrillers e biografias que vêm preenchendo a sua carreira, apesar de terem boas produções e em alguns casos até cumpridores face àquilo a que se apresentam, revelam-se no final apenas como filmes não mais do que banais que não acrescentam nada de novo ao cinema deste tempo. Com O Conselheiro, Scott regressa então a este registo, às histórias do mundo, dum mundo real mas muito aparente, sem grande jeito à boa maneira do seu irmão Tony já falecido. História mal contada, aos tropeções, filme longo demais, demasiado, excessivo de estilo e sem design de forma, lamentável e para esquecer depressa.


fevereiro 12, 2014

A vulva que derivou von Trier para um mesmo caminho

Quando às tantas no segundo capítulo Joe refere-se a uma das histórias de Seligman como a mais desinteressante que lhe contara até aí, já era evidente que não só essa história em particular mas também o filme começava a tornar-se geralmente desinspirado. É inevitável trazer a dúvida se esta versão cortada para as salas será muito diferente da versão completa e não censurada, a qual é assumida pelo realizador como sendo a definitiva do autor, mas a forma como o filme foi montado para se mostrar ao grande público acaba por afastar-nos de uma análise mais global do tipo filme-único, não fossem também as diferenças gritantes que encontramos do primeiro para o segundo capítulo.
Se na primeira parte Lars von Trier ousou com gosto explorando a perfeita história ninfomaníaca de Joe até chegar à idade adulta, já a segunda parte, encarregando-se de dar seguimento à perversão doentia da personagem, mais não afirma do que a sua decadência, a de Joe e a do próprio filme. Quero acreditar que era bem possível dar continuidade à inocência selvática da jovem Joe encarando sem rodeios o óbvio desencanto que trás a maturidade em qualquer circunstância, mas a verdade é que revelou-se mais do que evidente que a transição da idade capitulada no filme foi tão cruel para esta obra como o é para a própria vida e admitamos que há nisto uma grande coerência. O problema é que, apesar de reconhecer o génio de Lars von Trier, tenho sérias dúvidas de que está nesta coerência coincidente o fundamento para a degradação do filme. A verdade é que a segunda parte, como que partindo literalmente a força matriz que elevou a primeira, mais não faz do que expor sem gosto o progresso natural da regressão ao fim do mundo sexual. A forma chocante com que é mostrado este confronto com o presente ali sujo pelas telúricas experiências etéreas do orgasmo aos homens perigosos de desconcertantes vazios intelectuais, apenas faz o debate de Ninfomaníaca estéril e histérico, simplesmente provocador e tantas vezes sem grande nexo narrativo embora sempre esteta na sua forma. E assim, infelizmente desinspirado, tudo o que tinha de cativante na primeira parte se desmorona  na segunda através de lugares comuns feitos de sexo barato e deslavado, um manancial de todas as temáticas que fazem o tabu e a polémica e que se expõem depressa na chocante erecção ao ritmo da tradicional história das crianças no parque ou no nó vaginal descortinando o prazer através do espancamento passando ainda por uma incompreensível referência a Anticristo. Mais lamentável é chegar ao fim do filme e confirmar todo este desgaste cansado com a absurda e definitivamente previsível punch line do confidente Seligman que deu assim o pretexto ideal para Gainsbourg fugir do filme e porventura até libertar-se assim da já longa parceria com o realizador.
Apesar de tudo e no entanto, este é um filme que vale a pena. Referência justa ao despudor dos actores e a sempre conseguida integração de temas da música clássica que oferecem à peça os contrastes necessários à fortaleza da dialéctica mesmo que duvidosa em alguns momentos. Lars von Trier é dos únicos que actualmente tem a capacidade de exercer desafio a quem não se coíbe dessa tentação que é ser desafiado por ele. A sua obra continuará com certeza no trilho desconcertante, sempre muito plástico e muito visceral em simultâneo e sempre muito provador mesmo que com falhas e abusos retóricos desnecessariamente excessivos motivados quiçá por uma necessidade de afirmação face ao status quo da industria.

janeiro 28, 2014

Ela

Amor,
ontem vimos um dos melhores filmes da nossa vida. E já vimos centenas de filmes juntos e já sentimos por vezes tudo. Mesmo assim. O cinema nunca nos deixará de surpreender. O melhor é mesmo quando ficamos sem palavras, em que só um beijo seca no fim as lágrimas ficando depositadas ao sabor da saliva e quando ficamos assim sem saber o que dizer perante o silêncio deste presente. E há tanto presente no mundo, uma infinitude de coisas simples ou mais brutais que nos ajudam a compreender a felicidade em torno daquilo que esperamos continuar no futuro, nem que seja no milésimo de segundo seguinte e no seguinte e no seguinte... Se há uma ponta de egoísmo em nós quando projectamos coisas na nossa vida que pensamos ser as melhores independentemente de terceiros ouvindo apenas o que queremos ouvir, falando apenas quando queremos dizer alguma coisa e sentindo quando achamos ter a melhor disponibilidade para sentir, por outro lado é inegável que estamos munidos de uma generosidade maior por, no limite, decidirmos em função do outro e assim apaixonarmos-nos através desta luta eterna entre o que somos para nós e o que queremos ser para outra pessoa ou ter dessa outra pessoa. No fundo, todos procuramos a melhor forma de sermos felizes, nem que seja por imagens, nem que seja por ideias e vivê-las faz-me bem, ainda para mais tendo-as à pele que toca assim a tua. Talvez a principal razão de todas as zangas do universo esteja na falta de balanço, na perda de equilíbrio que tem na sua origem estas batalhas interiores, quase sempre perdidas à partida não deixando por isso de valer a pena serem travadas. Esta vale a pena, digo-te. É verdade que quando crescemos vamos deixando algumas coisas para trás, coisas que dão lugar a outras, outras que dão lugar a novas. Há em nós certamente um esforço grande em encarar as alterações da vida e aceitar as novidades que vão aparecendo por isso desculpa se tem alturas em que não lido bem com algumas coisas e me esqueço do quão bom é ter alguém tão importante na minha vida, como tu, alguém que cuide de mim, que me acaricie à noite e que me conforte ao longo do dia com o saber de estarmos ligados pela magia do pensamento. Será pois isto o amor, eu e tu, pessoas individuais de realidade que se ligam todos os dias e que vivem na certeza de que um dia hão-de morrer nunca uma para a outra, mas sim uma com a outra.
O teu,

janeiro 10, 2014

Não vão ser precisos 12 anos para ganhar um óscar

Quando o filme acabou não pude deixar de sentir uma sensação agri-doce dentro de mim. Os meus olhos e o meu coração estavam embargados com o aquele final e com o que tinha acabado de ver pois por um lado fiquei com a certeza de que tinha acabado de assistir a um bom filme, um bom filme em termos técnicos, de exploração da história, na interpretação dos actores. Mas por outro lado, após secar as emoções fortes que me despertara esta história, apercebi-me que essas mesmas emoções eram também o sinal de que, com aquele filme, tinha presenciado a viragem de ciclo de um dos realizadores mais promissores do cinema.
Para a crítica com certeza que 12 Years a Slave ficará como a afirmação de Steve McQueen no mundo da realização e que será com justiça consagrada nos prémios que se avizinham. Na minha opinião, não pode ser de outra forma, mesmo não tendo visto ainda aqueles que, juntamente com este, são apontados aos prémios. É um filme claramente para ganhar e dirá a parte crítica da crítica que esse é o problema. No entanto, há aqui que confessar que, à luz do presente, é sempre um pouco difícil aceitarmos estas evoluções dos realizadores que são sobretudo marcadas pelos meios de produção que vão tendo à disposição à medida que fazem as suas carreiras e que lhes permitem executar projectos de maior dimensão e ambição. Mas independente dos meios, eu quero acreditar que Steve McQueen fez o filme que queria fazer baseado numa história a que não conseguiu ficar indiferente. Se os meios de produção desvirtuam ou condicionam a liberdade criativa, quero acreditar que neste caso essa pode não ser uma verdade assim tão absoluta se pensarmos que, como em tudo na vida, existe sim uma adaptação face às diversas circunstancias, a própria mutação da personalidade num mundo global cheio de desafios e que aqui teve o propósito de fazer justiça à história incrível de Solomon nesse pedaço da História, desafio este que foi concretizado com seriedade e qualidade inquestionáveis.
Embora desiludido por ver partir esse realizador que fez Hunger ou Shame, sem dúvida filmes mais independentes, mais autorais, de complexidade mais perturbadora, de guerrilha silenciosa, urbana e soturna, este consensual filme dá a garantia de que um grande realizador está a trilhar o seu caminho com a segurança daqueles que sabem o que estão a fazer.



janeiro 07, 2014

Quando os velhos são apenas trapos

Por vezes pergunto-me se o Robert De Niro ao aceitar entrar nestes filmes quer mesmo deliberada e voluntariamente ridicularizar aquilo que no passado conseguiu fazer. O envelhecimento pode revelar-se um drama para qualquer actor, como para qualquer pessoa, pois já não haverá nesta fase da vida a mesma vitalidade para prosseguir com uma carreira de sucesso da forma como De Niro a construiu através dos filmes e personagens memoráveis que fizeram dele um dos mais geniais actores que o cinema já viu. Ainda assim, nestes tempos que correm, De Niro não deixa de surpreender pela negativa a cada filme que aparece. Estes filmes são maus demais e com certeza que esta parte da sua carreira não ficará para a história.

janeiro 03, 2014

Pelos caminhos largos da reflexão

Imperfeita a arte da entrevista. No entrevistado há sempre aquela sensação de que fica a faltar algo por dizer e no entrevistador a certeza que existem sempre tantas outras coisas por perguntar. Ainda assim, nesse exercício de pensar o cinema para além dos filmes ou, se quisermos, por outro lado, reflectir o cinema tendo por dentro o filme acima de tudo, aqui fica uma tentativa de dar resposta ao entendimento que faço sobre a minha forma de olhar o tema tendo por base as perguntas que me foram colocadas.
Aqui fica o caminho.