fevereiro 28, 2014

Uma grande beleza

É bela a ideia de ver deitado o mar no embarque para a história. Durante mais de duas horas fui romano ou como Jep um mundano, rei da mundanidade. Que sonho é este o da mundanidade? Haverá pois na decadência da sociedade o melhor poema ou quadro que se possa fazer. Haverá sempre no beco mais sujo o mais perfeito cruzamento com a memória, esse espelho de reflexos que um dia couberam no tempo passado e que eternamente resistem à passagem. Haverá sim na degradação da expressão intelectual uma fonte inesgotável de palavras ocas que gritam aos sítios por uma revolta. Haverá nesta selva selvagem de ruínas as penumbras capazes de nos salvarem. Jep deambula por entre os espaços como se fosse um morto-vivo, como se pairasse trazendo o último julgamento da humanidade por mais cruel que esse seja. Jep percorre tudo, tão vivo e tão morto em toda a sua mobilidade como as obras primas revisitadas e cheias de imortalidade. Roma será certamente uma das derradeiras cidades simultâneas em todo o mundo, onde a história imutável cruza-se todos os dias com a volátil mundanidade que dirão decadente mas que é, por outro lado, inevitavelmente libertadora por clarificar o desígnio da actualidade, mesmo se tal conclusão remeter para uma profunda desilusão e desespero. Cada plano traz no focus da sombra de todas as pessoas uma melancolia plena cheia de presunção não mais do que plástica e por nada inocente na sua composição. A Grande Beleza, uma das peças contemporâneas mais completas da arte do filme enquanto produto de uma filmagem, de uma visão erudita e rupestre também, cheia de espírito e estilo europeu que no seu decorrer acaba por fazer uma inteligente critica aos dilemas e contrastes da sociedade deste tempo.

fevereiro 19, 2014

A nova ficção científica de Ridley Scott

parece resumir-se a desfiladores de estilo de duvidosa moda, gangsters implacáveis, decapitações variadas a pé ou a alta velocidade, a tradicional e trágica história do amor maior, a polivalência capilar de Bardem, contos sexuais e outras histórias menores que só servem para agudizar a dor da passagem dos minutos e no meio de tudo isto reflexões intelectuais de pseudo alto gabarito, improváveis e desconcertantes, negativamente com certeza. O Conselheiro. É isto a nova ficção cientifica de Ridley Scott, o génio criador ou recriador do género para cinema. Claro que a ficção científica é chamada a este texto como provocação porque a verdade é que há muito que o realizador deixou este campeonato. É verdade que depois de ressuscitar o alien com a prequela Prometheus voltámos a ver um pouco daquilo que deu o nome a Ridley Scott muito embora a qualidade desse filme mereça também ser alvo de critica. No entanto foi sol de pouca dura pois apesar de todas as noticias que se seguiram ao lançamento de Prometheus acerca da continuação da história, vemos que todas elas serviram única e exclusivamente ao marketing do filme pois parece que nada está ainda convenientemente projectado e mesmo a já mítica recuperação de Blade Runner, para além de pronunciar-se como fiasco, parece ainda uma coisa longínqua de se concretizar no tempo de Scott dadas estas variações duvidosas. O talento de Ridley Scott é conhecido e reconhecido mas infelizmente no que à ficção científica diz respeito não faz nada de original, ou seja, nada que não seja baseado nas obras-primas que deram inicio à sua carreira e mesmo todos estes dramas, thrillers e biografias que vêm preenchendo a sua carreira, apesar de terem boas produções e em alguns casos até cumpridores face àquilo a que se apresentam, revelam-se no final apenas como filmes não mais do que banais que não acrescentam nada de novo ao cinema deste tempo. Com O Conselheiro, Scott regressa então a este registo, às histórias do mundo, dum mundo real mas muito aparente, sem grande jeito à boa maneira do seu irmão Tony já falecido. História mal contada, aos tropeções, filme longo demais, demasiado, excessivo de estilo e sem design de forma, lamentável e para esquecer depressa.


fevereiro 12, 2014

A vulva que derivou von Trier para um mesmo caminho

Quando às tantas no segundo capítulo Joe refere-se a uma das histórias de Seligman como a mais desinteressante que lhe contara até aí, já era evidente que não só essa história em particular mas também o filme começava a tornar-se geralmente desinspirado. É inevitável trazer a dúvida se esta versão cortada para as salas será muito diferente da versão completa e não censurada, a qual é assumida pelo realizador como sendo a definitiva do autor, mas a forma como o filme foi montado para se mostrar ao grande público acaba por afastar-nos de uma análise mais global do tipo filme-único, não fossem também as diferenças gritantes que encontramos do primeiro para o segundo capítulo.
Se na primeira parte Lars von Trier ousou com gosto explorando a perfeita história ninfomaníaca de Joe até chegar à idade adulta, já a segunda parte, encarregando-se de dar seguimento à perversão doentia da personagem, mais não afirma do que a sua decadência, a de Joe e a do próprio filme. Quero acreditar que era bem possível dar continuidade à inocência selvática da jovem Joe encarando sem rodeios o óbvio desencanto que trás a maturidade em qualquer circunstância, mas a verdade é que revelou-se mais do que evidente que a transição da idade capitulada no filme foi tão cruel para esta obra como o é para a própria vida e admitamos que há nisto uma grande coerência. O problema é que, apesar de reconhecer o génio de Lars von Trier, tenho sérias dúvidas de que está nesta coerência coincidente o fundamento para a degradação do filme. A verdade é que a segunda parte, como que partindo literalmente a força matriz que elevou a primeira, mais não faz do que expor sem gosto o progresso natural da regressão ao fim do mundo sexual. A forma chocante com que é mostrado este confronto com o presente ali sujo pelas telúricas experiências etéreas do orgasmo aos homens perigosos de desconcertantes vazios intelectuais, apenas faz o debate de Ninfomaníaca estéril e histérico, simplesmente provocador e tantas vezes sem grande nexo narrativo embora sempre esteta na sua forma. E assim, infelizmente desinspirado, tudo o que tinha de cativante na primeira parte se desmorona  na segunda através de lugares comuns feitos de sexo barato e deslavado, um manancial de todas as temáticas que fazem o tabu e a polémica e que se expõem depressa na chocante erecção ao ritmo da tradicional história das crianças no parque ou no nó vaginal descortinando o prazer através do espancamento passando ainda por uma incompreensível referência a Anticristo. Mais lamentável é chegar ao fim do filme e confirmar todo este desgaste cansado com a absurda e definitivamente previsível punch line do confidente Seligman que deu assim o pretexto ideal para Gainsbourg fugir do filme e porventura até libertar-se assim da já longa parceria com o realizador.
Apesar de tudo e no entanto, este é um filme que vale a pena. Referência justa ao despudor dos actores e a sempre conseguida integração de temas da música clássica que oferecem à peça os contrastes necessários à fortaleza da dialéctica mesmo que duvidosa em alguns momentos. Lars von Trier é dos únicos que actualmente tem a capacidade de exercer desafio a quem não se coíbe dessa tentação que é ser desafiado por ele. A sua obra continuará com certeza no trilho desconcertante, sempre muito plástico e muito visceral em simultâneo e sempre muito provador mesmo que com falhas e abusos retóricos desnecessariamente excessivos motivados quiçá por uma necessidade de afirmação face ao status quo da industria.