janeiro 23, 2015

Os amantes da ponte nova

Tão puros são os silêncios e as danças na ponte, cada maldade posta na parte de quem sofre na cidade. Tomara tudo ser tão lúcido como a noite em que na escuridão os espelhos correm no rio e os fogos na claridade espalham um pouco do deslumbre de outros tempos.
Amar é um descontrolo sem fronteiras nem horizonte mesmo quando se incendeiam as paredes com o teu nome. Toda a libertação e a desgraça dos amantes, todo o desapego cruel das formas comuns de amar, toda a timidez e a euforia do amor, num filme apenas.


maio 13, 2014

Afinal o cinema está debaixo da pele

O cinema não é mais do que a prática da originalidade estando por certo sempre ancorada na estimulação não linear dos sentidos. É este o cinema que nos acelera a batida, que nos envolve por dentro, que provoca o medo e devolve a angustia de quem por fim não sabe bem o que acabou de ver. E este é o filme, este é então o cinema de que mais gosto e que afinal estava aqui tão perto, como que debaixo da pele.
Alternativo, estimulante, composto, delineando a estranheza de uma tentação extra-terrestre que só podia ter corpo numa das terrestres mais belas, Scarlett Johansson. É logo desde o inicio que somos conduzidos para uma experiência nova onde nem cabem as referências a Kubrick ou Lynch tão eternos como esse passado e que aqui Glazer transforma em contemporaneidade através de um trabalho original, tão fino como denso, um pleno de suspense e terror de uma industrialidade vinculada ao corpo e ao som rasgado da banda sonora que ajuda a conferir grande intensidade a esta criação. É na repetição desses sons e dos caminhos que levam as vitimas humanas ao labirinto isolado e desnudo da predação, que está espelhado o toque de génio do realizador, tão imerso numa substância estranha que se define no esplendor incógnito de uma trama de erotismo e morte, sem prazer e sem gritos, de poucas palavras e um rito sempre igual mas cheio de objectivo. Atingir o objectivo em Debaixo da Pele é então um exercício feito quase sob hipnose, de forma meio delirada, surrealista, mas em simultâneo ligada à identidade de um espaço familiar. É interessante todo o cenário, cheio de propósito, um subúrbio escocês, como que no fim do mundo, um mundo perfeitamente esculpido às necessidades da sobrevivência extra-terrestre através da aniquilação da solidão masculina, ora muito viril e ignorante, ora carente por distância e exclusão, o que faz por, no fim, mostrar ao alien o que é a humanidade e que é por um lado protectora e sensível, mas por outro, ofensiva e abusadora.
Filme do ano, independente, independentemente do que digam, esta é a nova ficção cientifica do século sem grandes artifícios ou artimanhas espaciais, um pedaço de cinema magistral sem defeito que se aponte ou qualidade que se consiga verbalizar na perfeição. Enfim, um objecto intimo e permanente tal o sangue que nos corre a todos por debaixo.

fevereiro 28, 2014

Uma grande beleza

É bela a ideia de ver deitado o mar no embarque para a história. Durante mais de duas horas fui romano ou como Jep um mundano, rei da mundanidade. Que sonho é este o da mundanidade? Haverá pois na decadência da sociedade o melhor poema ou quadro que se possa fazer. Haverá sempre no beco mais sujo o mais perfeito cruzamento com a memória, esse espelho de reflexos que um dia couberam no tempo passado e que eternamente resistem à passagem. Haverá sim na degradação da expressão intelectual uma fonte inesgotável de palavras ocas que gritam aos sítios por uma revolta. Haverá nesta selva selvagem de ruínas as penumbras capazes de nos salvarem. Jep deambula por entre os espaços como se fosse um morto-vivo, como se pairasse trazendo o último julgamento da humanidade por mais cruel que esse seja. Jep percorre tudo, tão vivo e tão morto em toda a sua mobilidade como as obras primas revisitadas e cheias de imortalidade. Roma será certamente uma das derradeiras cidades simultâneas em todo o mundo, onde a história imutável cruza-se todos os dias com a volátil mundanidade que dirão decadente mas que é, por outro lado, inevitavelmente libertadora por clarificar o desígnio da actualidade, mesmo se tal conclusão remeter para uma profunda desilusão e desespero. Cada plano traz no focus da sombra de todas as pessoas uma melancolia plena cheia de presunção não mais do que plástica e por nada inocente na sua composição. A Grande Beleza, uma das peças contemporâneas mais completas da arte do filme enquanto produto de uma filmagem, de uma visão erudita e rupestre também, cheia de espírito e estilo europeu que no seu decorrer acaba por fazer uma inteligente critica aos dilemas e contrastes da sociedade deste tempo.

fevereiro 12, 2014

A vulva que derivou von Trier para um mesmo caminho

Quando às tantas no segundo capítulo Joe refere-se a uma das histórias de Seligman como a mais desinteressante que lhe contara até aí, já era evidente que não só essa história em particular mas também o filme começava a tornar-se geralmente desinspirado. É inevitável trazer a dúvida se esta versão cortada para as salas será muito diferente da versão completa e não censurada, a qual é assumida pelo realizador como sendo a definitiva do autor, mas a forma como o filme foi montado para se mostrar ao grande público acaba por afastar-nos de uma análise mais global do tipo filme-único, não fossem também as diferenças gritantes que encontramos do primeiro para o segundo capítulo.
Se na primeira parte Lars von Trier ousou com gosto explorando a perfeita história ninfomaníaca de Joe até chegar à idade adulta, já a segunda parte, encarregando-se de dar seguimento à perversão doentia da personagem, mais não afirma do que a sua decadência, a de Joe e a do próprio filme. Quero acreditar que era bem possível dar continuidade à inocência selvática da jovem Joe encarando sem rodeios o óbvio desencanto que trás a maturidade em qualquer circunstância, mas a verdade é que revelou-se mais do que evidente que a transição da idade capitulada no filme foi tão cruel para esta obra como o é para a própria vida e admitamos que há nisto uma grande coerência. O problema é que, apesar de reconhecer o génio de Lars von Trier, tenho sérias dúvidas de que está nesta coerência coincidente o fundamento para a degradação do filme. A verdade é que a segunda parte, como que partindo literalmente a força matriz que elevou a primeira, mais não faz do que expor sem gosto o progresso natural da regressão ao fim do mundo sexual. A forma chocante com que é mostrado este confronto com o presente ali sujo pelas telúricas experiências etéreas do orgasmo aos homens perigosos de desconcertantes vazios intelectuais, apenas faz o debate de Ninfomaníaca estéril e histérico, simplesmente provocador e tantas vezes sem grande nexo narrativo embora sempre esteta na sua forma. E assim, infelizmente desinspirado, tudo o que tinha de cativante na primeira parte se desmorona  na segunda através de lugares comuns feitos de sexo barato e deslavado, um manancial de todas as temáticas que fazem o tabu e a polémica e que se expõem depressa na chocante erecção ao ritmo da tradicional história das crianças no parque ou no nó vaginal descortinando o prazer através do espancamento passando ainda por uma incompreensível referência a Anticristo. Mais lamentável é chegar ao fim do filme e confirmar todo este desgaste cansado com a absurda e definitivamente previsível punch line do confidente Seligman que deu assim o pretexto ideal para Gainsbourg fugir do filme e porventura até libertar-se assim da já longa parceria com o realizador.
Apesar de tudo e no entanto, este é um filme que vale a pena. Referência justa ao despudor dos actores e a sempre conseguida integração de temas da música clássica que oferecem à peça os contrastes necessários à fortaleza da dialéctica mesmo que duvidosa em alguns momentos. Lars von Trier é dos únicos que actualmente tem a capacidade de exercer desafio a quem não se coíbe dessa tentação que é ser desafiado por ele. A sua obra continuará com certeza no trilho desconcertante, sempre muito plástico e muito visceral em simultâneo e sempre muito provador mesmo que com falhas e abusos retóricos desnecessariamente excessivos motivados quiçá por uma necessidade de afirmação face ao status quo da industria.

janeiro 28, 2014

Ela

Amor,
ontem vimos um dos melhores filmes da nossa vida. E já vimos centenas de filmes juntos e já sentimos por vezes tudo. Mesmo assim. O cinema nunca nos deixará de surpreender. O melhor é mesmo quando ficamos sem palavras, em que só um beijo seca no fim as lágrimas ficando depositadas ao sabor da saliva e quando ficamos assim sem saber o que dizer perante o silêncio deste presente. E há tanto presente no mundo, uma infinitude de coisas simples ou mais brutais que nos ajudam a compreender a felicidade em torno daquilo que esperamos continuar no futuro, nem que seja no milésimo de segundo seguinte e no seguinte e no seguinte... Se há uma ponta de egoísmo em nós quando projectamos coisas na nossa vida que pensamos ser as melhores independentemente de terceiros ouvindo apenas o que queremos ouvir, falando apenas quando queremos dizer alguma coisa e sentindo quando achamos ter a melhor disponibilidade para sentir, por outro lado é inegável que estamos munidos de uma generosidade maior por, no limite, decidirmos em função do outro e assim apaixonarmos-nos através desta luta eterna entre o que somos para nós e o que queremos ser para outra pessoa ou ter dessa outra pessoa. No fundo, todos procuramos a melhor forma de sermos felizes, nem que seja por imagens, nem que seja por ideias e vivê-las faz-me bem, ainda para mais tendo-as à pele que toca assim a tua. Talvez a principal razão de todas as zangas do universo esteja na falta de balanço, na perda de equilíbrio que tem na sua origem estas batalhas interiores, quase sempre perdidas à partida não deixando por isso de valer a pena serem travadas. Esta vale a pena, digo-te. É verdade que quando crescemos vamos deixando algumas coisas para trás, coisas que dão lugar a outras, outras que dão lugar a novas. Há em nós certamente um esforço grande em encarar as alterações da vida e aceitar as novidades que vão aparecendo por isso desculpa se tem alturas em que não lido bem com algumas coisas e me esqueço do quão bom é ter alguém tão importante na minha vida, como tu, alguém que cuide de mim, que me acaricie à noite e que me conforte ao longo do dia com o saber de estarmos ligados pela magia do pensamento. Será pois isto o amor, eu e tu, pessoas individuais de realidade que se ligam todos os dias e que vivem na certeza de que um dia hão-de morrer nunca uma para a outra, mas sim uma com a outra.
O teu,

dezembro 10, 2013

A Odisseia no Espaço

Foi na Pré-História que se colocaram os primeiros desafios ao Homem que tinha na Terra o seu único universo e não será ficção julgar que a Humanidade fez-se para o futuro a partir do momento em que o Homem descobriu a tool para conquistar e defender o território e para dominar o outro. Só a dominação pela força permitiu ao Homem evoluir-se ao longo dos tempos adquirindo a capacidade para dar o salto no tempo e conhecer novos mundos à medida que o meio o ia transformando também e que está bem reflectido no filme através dos vibrantes entardeceres naqueles vastos cenários paleolíticos. A tomada de consciência que resultará no tal salto evolutivo, quiçá motivada por uma qualquer força extraterrestre (aqui a ficção não terá necessariamente de ser tomada à letra), está na forma e na figura daquele que é porventura o momento mais clarividente e simbólico da história do cinema, aquele momento em que a primeira arma do homem é arremessada aos céus num grito-macaco dando lugar ao veiculo espacial em queda ascendente e que materializa uma outra distante conquista do homem ali descentrado num universo sem céu e sem horizonte.

Ao som do Danúbio, já o Planeta é um passado e encaminhados pela força magnética do misterioso Deus das estrelas já a busca pelos fundamentos fundamentais da raça humana impõe a Odisseia rumo ao desconhecido, para onde tudo começou e de onde tudo terminará um dia. No Espaço o diálogo é um acessório utilizado como instrumento que ajuda a perpetuar o mistério e cada movimento é um ícone soberbo de mestria composto de música e silêncio que nos eleva às profundezas da nossa estranheza. Tudo fica projectado sobre nós na forma desse bailado que ao longo da obra de arte vai lançando cada vez mais perguntas cujo fim não tem meio de devolver respostas lineares. Que força é essa que um dia nos deu a objectividade para cumprirmos as nossas capacidades mas que passados milhões de anos nos faz mover para o vazio mais obscuro sob o risco de nos mostrar a “verdade”? Que terror é esse o da infalibilidade electrónica e que, tal como nós, no fundo, apenas existe por se mover por objectivos maiores do que a própria sobrevivência? E como se define a sobrevivência num contexto onde todos os conceitos estão inquinados pelas expectativas materiais do intelecto intra-humano? 

Se a máquina serve para cumprir o desígnio imposto pelo próprio Homem, e se a confiança que lhe é programada para cumprir esse objectivo lhe dá a independência suficiente para no limite decidir sobre a vida humana, não será abusivo dizer que o momento em que o último sobrevivente desliga o supercomputador é de certa forma o momento em que ele desliga parte de si, aquela parte em que faz parte do processo de racionalidade de uma comunidade culta mas que à distância de milhares de anos está muito longe da verdade oculta que está para lá do entendimento do cosmos. Será pois a partir desse momento, que desta forma o homem regressa às origens, a um estado primitivo, sozinho e entregue ao destino que ali, já longe de 2001, vai-se concretizar na última viagem por um caminho de psicadélica glória, para lá do infinito e com todo o esplendor full of stars, rumo ao conforto da casa de Deus, pois não será de outra coisa aquele misterioso lugar onde o tempo avança para a morte à medida que quase simultaneamente já o corpo renasce para um presente final.


Na revisitação que fiz a 2001: Odisseia no Espaço, vejo agora claramente que este filme representa aquilo que define a Sétima Arte como extensão plena da pluralidade individual de nós mesmos. Qualificá-lo está longe de ser uma opção baseada no gosto ou na preferência de cada um. Este é o filme maior e o filme universal, obra-prima suprema em termos técnicos e onde as suas formas narrativas são feitas dos mais implacáveis e aterradores enigmas cujas soluções não existem à dimensão a que conseguimos vulgarmente colocá-las. Esta Odisseia de Kubrick é o Júpiter, impossível de habitar ou ser comparado ou igualado com outra coisa qualquer que conheçamos. É, enfim, o produto acabado em movimento eterno e a representação perfeita daquilo a que podemos considerar um cinema de todos como património comum da nossa globalidade e insignificância no Universo.

novembro 12, 2013

Uma imagem sem o filme


Que xadrez é este, Bergman? Qual aquele oceano e onde fica este paraíso de pedras? Mas que silêncio infinito guardará o silêncio destas peças? É estranho ver uma imagem de um filme sem saber qual o contexto, sem ter visto portanto o filme e tão pouco do que fala. O Sétimo Selo. Sempre me intrigou este título. Dizem que é uma obra-prima como quase todos os filmes do mestre, não duvido, mas não conheço, este e certamente muitos outros e também a verdade é que quanto mais se conhece a realidade mais longe estamos de conhecer tudo, seja tudo o que for, mesmo que seja nada ou a simples aparência da insignificância mais vaga e abstracta. Não será isso propriamente mau se for consciente a afirmação dessa condição e não feita puramente assente na deriva material do materialismo que nos aproxima uns dos outros e que nos dá tanto conhecimento mas que no fundo desvirtua a base elementar da convivência com o silêncio da natureza, da viva à mais morta e da nossa própria.
Quero pois olhar para esta imagem e sentir que através da sua configuração intelectual consigo atingir o estado espiritual térreo que preciso para interpretar as coisas simples. Pois hoje é dia de ser mais um dia simples, um dia em que estou farto deste ruído agreste que vem de fora. Hoje não quero ver imagens em movimento, não quero ouvir nada que não venha da minha cabeça e só quero imaginar que a minha única virtude é ser um ser que só se concretiza parando o movimento das coisas sem querer saber do resto. Hoje é o dia para visitar a minha ignorância sobre as coisas e apelar ao meu espírito de aventureiro desventurado que se perdeu no caminho da razoabilidade.
Será esta imagem a afirmação da racionalidade do homem através do movimento tabular sobre as coisas naturais? Serão estas as linhas com que se desenham os contornos do dialéctico mental versando à soberba humildade etérea da terra? Pensando bem, eu não quero respostas para esta imagem, muito menos procuro as respostas do autor que as concebeu. Só quero olhar para ela para sempre e não perceber nada da vida ou tentar esquecer que percebo alguma coisa dela, porque é não percebendo que eu neste momento sou completo e que sou útil à sociedade. É assim que eu agora sou e talvez é sendo desta forma que consiga melhor compreender o fundamento deste jogo da razão no confronto directo com o painel cinzento dos sentimentos. 

outubro 29, 2013

A gravidade depois de 2001

Gravity vai ficar marcado em mim como a melhor experiência em sala de cinema que já tive. No final, fiquei com curiosidade para saber se a versão normal traria o mesmo tipo de sensações e conclusões que aquelas vistas e tiradas naquele ecrã gigante, pois é inegável que a sala IMAX do Colombo proporciona uma experiência física diferente que, a meu ver, permite aproximar o espectador daquilo a que este filme se propõe. E quando falo em aproximar é quase no sentido literal do termo.
Em termos visuais, Gravity é um espectáculo colossal e magnânimo fazendo justiça ao extremo clima espacial. O trabalho na profundidade dos planos e a noção de velocidade na deriva, quer nas situações mais controladas ou nas mais descontroladas e aliado à forma como se encaixam os sons e a música está feito de forma notável. Não fossem as punch lines comercialoides da personagem de Clooney ou a necessidade de preencher o silêncio com outras linhas de diálogo desnecessárias e estaríamos aqui perante um filme maior, possível de chegar perto de 2001 já que é com este que se pode estabelecer alguma espécie de paralelismo, em termos estéticos e na fidelidade ao real do Espaço, claro.
Sendo verdade que em termos narrativos tudo aquilo que tem vindo a ser feito na ficção científica, incluindo este Gravity, continua a estar a anos-luz de 2001, ainda assim os aspectos da estória deste filme são abordados de uma forma que, à órbita e no olhar sobre a “mãe azul” e sob a infinitude espacial, atingem um inevitável nível filosófico que acaba por estar bem conseguido. Se a origem do Homem está naquele vazio tão total e complexo, é pois confrontado com esse vazio que o Homem acabará por encontrar as respostas mais simples para a sua sobrevivência. O desfecho é categórico nesse sentido, pelo que foi então na situação-limite da mais perfeita e derradeira solidão e na eminência do silêncio eterno, que Ryan Stone teve a epifania da sua vida que lhe permitiu no final ganhar de novo a gravidade.

outubro 28, 2013

A cena do chuveiro

Neste espaço onde pretendo trazer algumas das cenas de cinema que considero mais memoráveis estarão com certeza muitas daquelas que nos vêm logo à memória e que correspondem a filmes que marcaram a história. A recuperação de certas cenas será então um cliché ou mais um apontamento de banalidade dada a popularidade dessas imagens, não nego isso. Mas por outro lado nunca é demais rever e relembrar esses momentos, muitas vezes feitos de simplicidade, frutos do fait diver, feitos sem o propósito de tornar memorável, não mais sendo do que pedaços que complementam uma narrativa.
Neste caso relembrar a cena do chuveiro em Psycho é mais do que um cliché. Mas na perspectiva da análise e estudo da mecânica cinematográfica, esta revisitação é seguramente uma obrigação.

setembro 28, 2013

No início era o macaco

Eu não podia fechar este mês com a referência filmica a Kubrick. É verdade que as fotografias para a Look já anteviam qualquer coisa para o futuro, mas o cinema superou tudo. Fechar esta espécie de ciclo fotográfico de Kubrick com uma pequena parte da longa cena inicial de 2001 é mais do que merecido. Dirão que foi a partir de 2001 que Kubrick se fez Kubrick e de facto é bem verdade. Pode também afirmar-se que já antes, com Lolita e Dr. Strangelove, Kubrick foi trabalhando-lhe o génio mas em 2001, tal uma supernova, o realizador despertou e fez-se brilhar de outra maneira mudando para sempre o cinema.
Nesta cena em particular cabe aquela que será porventura a melhor transição da história do cinema, do passado para o futuro, um osso usado como primeiro instrumento de guerra para a nave espacial, símbolo da perfeita exploração do espaço, para lá do cosmos, para lá das fronteiras e de tudo aquilo que um dia julgámos ser impossível.

setembro 09, 2013

Blowup

Todas as palavras serão poucas para fazer justiça à totalidade de Blowup de Antonioni. Nem a cena que trago consegue reproduzir a ideia que gostava de transmitir. Mas, usando de um esforço que só este tipo de filmes pode merecer, vou tentar dizer alguma coisa. Aquilo que com certeza mais me fascina no cinema é a possibilidade que ele tem em reunir várias modalidades artísticas em função da ficção filmada. Desta forma, Blowup suporta este meu fascínio não sendo apenas um filme, mas sim uma conjugação plena de formas de arte que resultaram num filme de uma afirmação cultural que acaba por extravasar as fronteiras do tempo. Neste filme em particular é absolutamente brilhante o enquadramento da narrativa num modeling pop alternativo que se reflecte no guarda-roupa, na música, na cenografia e na construção da função do fotógrafo concebida como um escultor de imagens vivas. Se repararmos bem a imagem do poster original do filme parece um monumento, uma escultura tirada do momento em que o fotógrafo possui a modelo através da fotografia, imagem que remete até para o acto sexual. Há com certeza muitas cenas ou imagens que suportem melhor esta ideia que tiro do filme, mas vale a pena rebuscar a cena do concerto porque reflecte a preocupação séria em ancorar de realidade o filme. A cena acontece num sub-club britânico onde as pessoas que assistem ao espectáculo comportam-se como manequins mesmo perante a fúria das guitarras de Jimmy Page e Jeff Beck dos Yardbirds que depressa resolvem tornar o concerto num desconcerto generalizado tal a geração ali representada na mais perfeita extravagância, enfim, motivos muito singulares que servem de pano de fundo à inquietante busca pela verdade ou por aquilo que o fotógrafo julga ser a verdade.

agosto 26, 2013

Os gangues de Hollywood

Sofia Coppola é talentosa e depois de ter iniciado a sua carreira com The Virgin Suicides e Lost in Translation, quase que já nem é preciso pedir-lhe que faça mais nada pois por aí já não tem nada a provar. Por outro lado, o grau de exigência subiu tanto graças a esses dois primeiros filmes que não deixa sempre de ser com grande expectativa que aguardamos o novo filme.
O último, The Bling Ring, é um filme simples e básico, não requer aparente esforço de compreensão, mas lança através dessa simplicidade o desafio para um olhar mais crítico sobre a sociedade materialista onde vivemos, os ídolos que seguimos, os ídolos que são construídos e aquilo que à dita alta socialite diz respeito. Sendo The Bling Ring um filme baseado numa história real que se debruça sobre aqueles miúdos que em Beverly Hills usaram as casas de algumas celebridades como se de lojas em liquidação total se tratassem, a verdade é que de alguma forma acabamos por sentir compaixão por aqueles pequenos e mimados ladrões que usam as cabeças apenas para enfiar chapéus e o raciocínio para lhes combinar as cores. Muito embora esteja sempre presente essa consciência de opacidade desses personagens, há também uma tentativa de construção da sua razão muito directa e franca que faz com que até aceitemos os seus comportamentos dado sabermos que do outro lado está um determinado tipo de pessoas que parece só estar no mundo para ostentar no mediatismo o imediatismo de um mundo aparte que cria sentimentos como a ganância, superficialidade ou inveja, os quais eles acabaram por ser vitimas, ou seja, vitimas deles próprios.
Apesar de não ter o brilho dos primeiros filmes, The Bling Ring não deixa de ser mais uma prova da certeza de Coppola.

agosto 17, 2013

Travis looks in the mirror

No dia em que Robert De Niro faz 70 anos, trago aqui aquela que será uma das suas cenas mais memoráveis.
O filme Taxi Driver ficará para a história muito à custa de Travis Bickle, uma perfeita criação de De Niro que, embora não o tivesse oscarizado, deu-lhe seguramente o ímpeto para uma carreira de grandes representações ao longo das três décadas que se seguiram. Se O Padrinho II ou ainda antes Mean Streats serviram para o anunciar ao mundo do cinema, Taxi Driver confirmou em definitivo o seu talento.
Perante uma carreira de tamanhos sucessos, será sempre arriscado apontar um filme que consiga resumir toda a sua capacidade. Mas a verdade é que essa capacidade está estampada em todo o filme, e nesta cena em particular é através deste dito golpe de improviso que De Niro revela todo o génio fruto de um trabalho sério de commitment à personagem que o levou, por exemplo, a trabalhar como taxista durante um mês doze horas por dia para se preparar devidamente para Travis. Só através de muito trabalho é que se consegue improvisar sem comprometer a personagem ou o próprio filme.
Esta cena, que é como um episódio de marca da antologia visual do cinema e da história popular da sétima arte, reflecte, como no espelho para onde Travis olha, a importância do actor no filme e o papel que ele tem em transformar aparentes nadas naqueles tudos totais que ficam para sempre na nossa memória.

agosto 03, 2013

Some sunny day


...

So will you please say hello,
To the folks that I know,
Tell them I won't be long,
They'll be happy to know that as you saw me go
I was singing this song.

We'll meet again,
Don't know where, don't know when,
But I know we'll meet again, some sunny day.


Com certeza que quando regressarmos todos das férias traremos na bagagem boas experiências cinéfilas.
Regresso em breve com novidades.

julho 25, 2013

Refn não perdoa

Após ver aquele que será com certeza dos melhores filmes do ano, não consigo perceber a razão que motivou a indignação daqueles que assistiram à estreia do filme em Cannes. Talvez seja uma questão de ingenuidade da minha parte, mas se é verdade que Only God Forgives pode ser caracterizado pela violência, será ele mais violento do que qualquer outro filme de Tarantino, por exemplo? Certo é que neste, a opção pela deriva revivalista dos géneros ‘b’, faz com que aligeire a violência com os maneirismos próprios da história que conta. Já em Refn tudo é sério, sério demais para não ser levado a sério, o que já faz dele um caso que está longe de ser tomado como unânime à crítica, daí motivar divergentes opiniões que irão com certeza da perfeita veneração à mais profunda repulsa. Ainda assim e reconhecendo a dureza com que Refn nos confronta num todo formal violento e real, parece-me que indignação será sempre uma reação algo exagerada. Prefiro a veneração.
Será com certeza à custa da personagem de Ryan Gosling que é inevitável a comparação com Drive. À luz de Gosling, pode-se dizer até que este filme é uma espécie de Drive à tailandesa, mas Drive era no sentido lato mais romântico e digerível na sua premissa para além de ser esteticamente mais comedido. Neste Only God Forgives, Refn vai às profundezas do culto humano, penetra no lugar underground dos sentimentos mais crus e exibe todo o esplendor visual soturno de uma cidade do pecado entregue à divina justiça dos homens. Ao ritmo das músicas que representam na perfeição o temor e a contradição sobre o crime, Only God Forgives revela ser um monumento gigante, um monumento vivo de silêncios cheios, espaços densos e cores hipnotizantes oferecidas em câmara lenta e que através do primor da capacidade do realizador conseguem reflectir todos os acontecimentos incluindo aqueles que não cabem na narrativa.
Tão comum mas já tão longe de Drive, é também a orientalidade deste filme que dá-lhe o Tempo, oferece-lhe o paradoxo, incute o certo brilho sombrio na trajectória suja para o precipício, a verticalidade da sexualidade incapaz, o complexo maternal e o valor da família ou a escolha da amputação material para a aquisição dos sentidos. Only God Forgives é um desafio que não se diz e que nos deixa à margem e simultaneamente por dentro, livres e entregues às sensações múltiplas e à fórmula que permite o juízo dos justos e injustos num mundo sem perdão e que deus parece ter deixado ao abandono. 


julho 22, 2013

2 x 3 x 7 não são 42

É curioso ver que mais do que sensibilizar os espectadores para uma agenda oculta presente no filme The Shining, o documentário Room 237 - pelo absurdo das teorias apresentadas e de como são "provadas" - acaba por chamar a atenção única e exclusivamente para alguns erros de continuidade que afinal são comuns a todos os filmes, mas que aqui tendem a ser mostrados como tencionais e propositados. Nada mais retenho deste documentário, a par de uma ou outra curiosidade que poderá ter fundamento, como por exemplo, a possível provocação de Kubrick a Stephen King com a cor do carro, ou ainda a ideia de que o filme pode ser visto de trás para a frente com a respectiva sobreposição sobre a projecção normal do filme que é interessante mas que valerá mais pela piada que certas coincidências desses planos sobrepostos podem mostrar.
Admito que Kubrick é terreno fértil para diversas interpretações, tal como uma obra de arte que está sujeita à crítica subjectiva, mas neste caso em particular os fundamentalistas da conspiração não deverão ter sido alheios ao facto de a seguir às filmagens de Barry Lyndon o realizador ter supostamente entrado em contacto com profissionais da publicidade e marketing com especialidade na inclusão de mensagens subliminares nos seus produtos. Poderá ter sido aqui o ponto de partida para a especulação. Como artista da imagem e especialista supremo na arte de filmar, concedo que nada do que é visto nos filmes de Kubrick é feito ao acaso, mas daí a fazer-se a correspondência simbólica com o Holocausto, a missão Apollo ou o genocídio dos povos indígenas dos Estados Unidos já me parece algo rebuscado demais.
Assumindo o certo mistério que há em Kubrick, há que dizer, por paradoxal que pareça, que a decifração dos seus códigos não se pode resumir à aritmética mais ou menos elaborada daqueles que procuram na multiplicação das partes a soma de uma verdade lunática sobre a sua obra.

julho 14, 2013

De Palma a Passion

Passion tem coisas muito interessantes. Embora ligeiramente perverso esperava mais erotismo e sadismo sexual, mas talvez isso seja reflexo de um desejo praticamente inconfessável que eu tenho para mim, mas que foi provocado desde logo pela primeira cena. Não é que a inclusão de uma componente ainda mais sexual fosse acrescentar algo de mais extraordinário ao filme, mas é um facto que o apelo sexual que é lançado por Rachel McAdams suscita logo o desejo em vermos materializada em sexo aquela tensão que, com o evoluir do filme vemos, mais não é do que objecto de manipulação num mundo mais do que material roçando mesmo a obscenidade dados os princípios que estão aqui em causa. E esta provocação sexual não é um pormenor. Sendo a ambição profissional o que move as personagens, ela manifesta-se através da chantagem sexual que torna-se como que adjectivo central da história. E isto claro que leva à acentuada perversão da personalidade protagonizada por Noomi Rapace que se vê envolvida num emaranhado de desejos materializados nos seus sonhos e que se vão misturando com a realidade num processo de vertigem e indecisão da verdade de um crime anunciado e materializado por entre as sombras.

Brian De Palma faz aqui mais um filme diferente que merece ser olhado com atenção, embora inevitavelmente sujeito a critica. A aparente falta de profundidade no desenrolar da história e também alguma falta de dimensão às personagens não é mais do que o suporte certo para a representação de um determinado interior obsessivo do ser humano capaz de tudo em situações de crise. E a deriva pela singularidade de De Palma neste Passion faz-se sobretudo pela forma como está construída a segunda metade do filme, em que são claras as influências do noir americano ao giallo italiano, o que faz prova deste filme como um sinal de vitalidade de um grande realizador que não desiste de fazer algo inovador.

julho 07, 2013

A família Stoker

Talvez pelas exigências profissionais que me obrigam a uma certa organização do conteúdo de cinema, tenho o hábito da catalogação e classificação dos filmes que vejo. A classificação que faço daquilo que vejo, reservo para o foro privado servindo sobretudo para a minha memória futura e confesso que dos meus dez melhores filmes não entra nenhum da década de 90 ou do novo milénio e isso, se por um lado, pode traduzir uma certa resistência ao que de novo se faz face ao antigo, por outro lado, penso que vai ao encontro daquilo que entendo como a decadência das ideias ou a decadência na forma como se filma o filme. Não quero com isto negar que se faz bom cinema nos dias hoje. Apesar dessa decadência generalizada há excepções notáveis mas que, no entanto, o tempo lá dará o devido crédito, tal como muito provavelmente eu o farei, ainda mais do que o faço actualmente, preservando a minha coerência quase formal, mas de acordo com a minha actualidade perfeitamente justa, em integrar nas minhas preferências filmes com mais de 25 anos.
Desta forma, quando dou de caras com um filme que rompe a regra da mediocridade não consigo esconder a excitação e o entusiasmo. Stoker não será um filme para entrar no tal top 10 da minha vida, talvez por lhe faltar ainda o tempo para isso, mas é sem dúvida do melhor que vi nos últimos tempos. Intenso e genial na maneira de contar a trama, uma representação soberba de Mia Wasikowska, com a super-estrela Nicole Kidman também muito bem, quase como sempre. Esta é uma história familiar de crime e de paixões proibidas, de silêncios ocultos e memórias incertas, segredos inconfessáveis e revelações macabras. Mas para além de contar histórias o cinema serve também para mostrá-las e aqui cada plano é configurado à luz de uma estética brilhante que é construída em forma de requintes e pormenores perturbadores que são servidos pelas personagens principais, o que já é uma imagem de marca do realizador Chan-wook Park.


junho 29, 2013

Los Olvidados Buñuel

Uma dessas pérolas do século passado será com certeza Los Olvidados de Buñuel. Não terá sido apenas pela tentativa de acompanhar o neo-realismo italiano dos anos 40, mas sim, e para além disso, por trazer para o cinema uma visão mais provocante e sombria sobre a desumanização provocada pela pobreza através das maldades perpetradas pelas crianças, que mais não são do que vitimas da miséria que lhes abraça e, no fundo, reflexo da dureza do mundo adulto. A capacidade provocatória da confrontação intima desse mundo pobre sob o espectador é logo dada no início do filme com o close-up de um menino de cabelo e rosto sujos que bufa feito um touro para a câmara, ou quando Pedro atira um ovo directamente para a câmara.
Então paralelamente à questão sociológica, Los Olvidados apresenta-se também como uma extensão da estética surrealista de Buñuel, que encorpa o uso da psicologia freudiana, o uso simbólico dos animais e o uso assombroso da câmara lenta que tem o seu momento maior na sequência do sonho do menino, o que me leva a acreditar o quão brilhante, em termos dessa estética surrealista, poderia ser este filme se Buñuel tivesse integrado todas as sequências que supostamente fez e que por razões de produção não terão sido integradas.

junho 21, 2013

A procura pelo homem morto


Pese embora vivamos tempos em que a criatividade parece estar refém do puro imediatismo dos fenómenos virais ou que um maior profissionalismo do trabalho do génio dependa cada vez mais do lobby que se faça junto das elites da cultura, é um facto que a arte, enquanto manifestação livre da intelectualidade do homem, é o único instrumento capaz de se impor ao mundo e contrariar aquilo que é dado como estabelecido. Foi isso que aconteceu com a revolução cultural dos Estados Unidos nos anos 60 e foi fundamentalmente através da música que se deu uma alteração na forma como se via o mundo das ideias, facto que viria a influenciar as futuras gerações.
Essa ideia da arte como poder único de transformação de uma sociedade está presente na forma como a música de Sixto Rodriguez teve impacto na África do Sul e este caso em particular tem contornos muito especiais. Aconteceu que, sem qualquer tipo de intervenção do criador, que limitou-se a fazer o seu trabalho sem esperar retorno, ainda para mais de um sitio do outro lado do mundo, os sul-africanos da Cidade do Cabo, motivados por circunstancias politicas e sociais adversas, adoptaram-no como seu herói sem o conhecer, tendo apenas uma imagem de capa de álbum de Rodriguez feito profeta para admirar e bastando apenas as suas palavras e a sua música para encontrarem conforto e inspiração. E para mim é aí que reside o verdadeiro significado e poder da arte, ou seja, o dar sem procurar receber nada em troca, tal o amor.
Já nos Estados Unidos, poderá ter havido uma altura em que algo falhou no trajecto de Rodriguez para que ele não fosse justamente integrado no circuito daqueles que mudaram aquele nosso mundo, mas ao ver este filme apercebemo-nos que Rodriguez não vive amargurado ou frustrado com o passado. Ele foi o artista que quis ser e aquilo que achava que podia ser. Aliás, a forma como é encarado o sucesso na África do Sul é sintomático da forma inocente como olha a sua arte e das escolhas que fez preferindo fazer parte da working class hero que Lennon disse, mas que Rodriguez fez.
Assumindo que os 60 americanos corresponderam a uma altura da história que foi propicia à formação de uma cultura popular mais genuína do que aquela que vivemos actualmente, o caso de Rodriguez vem dizer que nem tudo correu bem e que mesmo nessa altura existiram pessoas que por razões de exclusão ou preconceito não foram tidas em conta, tal como acontece nos dias de hoje. Também não deixa de ser interessante que, da mesma forma que a informação serve para promover uma cultura de mediocridade, a mesma informação serve também para salvar a cultura e transformar o trabalho anónimo num fenómeno planetário capaz de, neste caso em particular, dar a Rodriguez a referência que agora julgamos como merecida. E é aqui que o cinema entrou com este filme Searching for Sugar Man que, não sendo muito complexo na tentativa de explorar mais as razões pelas quais a super-estrela Rodriguez nunca chegou a nascer, ajudou a compreender que não foi por Rodriguez ter estado morto que deixou de viver.